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Naquele lugar sem nome pra qualquer fim
Uma gota rubra sobre a calçada cai
E um rio de sangue dum peito aberto sai
O vento que dá nas canas do canavial
E a foice duma ceifeira de Portugal
E o som da bigorna como um clarim do céu
Vão dizendo em toda a parte o pintor morreu
Teu sangue, Pintor, reclama outra morte igual
Só olho por olho e dente por dente vale
À lei assassina à morte que te matou
Teu corpo pertence à terra que te abraçou
Aqui te afirmamos dente por dente assim
Que um dia rirá melhor quem rirá por fim
Na curva da estrada há covas feitas no chão
E em todas florirão rosas duma nação
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FUI À BEIRA DO MAR
Fui à beira do mar
Ver a que lá havia
Ouvi uma voz cantar
Que ao lange me dizia
Ó cantador alegre
Que é da tua alegria
Tens tanto para andar
E a noite está tão fria
Desde então a lavrar
No meu peito a Alegria
Ouço alguém a bradar
Aproveita que é dia
Sentei-me a descansar
Enquanto amanhecia
Entre o céu e o mar
Uma proa rompia
Desde então a bater
No meu peito em segredo
Sinto uma voz dizer
Teima, teima sem medo
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SETE FADAS ME FADARAM
Sete fadas me fadaram
Sete irmãos m'arrenegaram
Sete vacas me morreram
Outras sete me mataram
Sete setes desvendei
Sete laranjinhas de oiro
Sete piados de agoiro
Sete coisas que eu cá sei
Sete cabras mancas
Sete bruxas velhas
Seter salamandras
Sete cega-regas
Sete foles
Sete feridas
Sete espadas
Sete dores
Sete mortes
Sete vidas
Sete amores
Sete estrelas me ocultaram
Sete luas, sete sóis
Sete sonhos me negaram
Aqui d'el rei é demais
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Ó MINHA AMORA MADURA
Ó minha amora madura
Ai diz-me quem te amadurou
Foi o sol foi a geada
Ai foi o calor que ela apanhou
Ó minha amora madura
Ai diz-me quem te amadurou
Foi o sol foi a geada
Ai foi o calor que ela apanhou
Ó minha amora madura
Ai diz-me quem te amadurou
Foi o sol foi a geada
Ai foi o calor que ela apanhou
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O AVÔ CAVERNOSO
O avô cavernoso
Instituiu a chuva
Ratificou a demora
Persignou-se
Ninguém o chora agora
Perfumou-se
Vinte mil léguas de virgens vieram
Inutéis e despidas
Flores de malva
E a boina bem segura
Sobre a calva
Ao avô cavernoso quem viu a tonsura?
E a tenda dos milagres e a privada?
Na tenda que foi nítida conjura
As flores de malva murcham devagar
Devagar
Até que se ouvem gritos, matinadas
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Ó TI ALVES
Ó Ti Alves
São poucas ou muntas
São poucas me menino
Mas prò ano
Já são mai muntas
Ó Ti Alves
São magras ou gordas
São magras me menino
Mas prò ano
Já são mai gordas
Ó Ti Alves
São pobres ou ricas
São pobres me menino
Mas prò ano
Já são mai ricas
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NO COMBOIO DESCENDENTE
No comboio descendente
Vinha tudo à gargalhada
Uns por verem rir os outros
E os outros sem ser por nada
No comboio descendente
De Queluz á Cruz-Quebrada
No comboio descendente
Vinham todos à janela
Uns calados para os outros
E os outros sem dar-lhes trela
No comboio descendente
Da Cruz-Quebrada a Palmela
No comboio descendente
Mas que grande reinação
Uns dormindo outros com sono
E os outros nem sim nem não
No comboio descendente
De Palmela a Portimão
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EU VOU SER COMO A TOUPEIRA
Eu vou ser como a toupeira
Que esburaca
Penitência, diz a hidra
Quando à seca
Eu vou ser como a gibóia
Que atormenta
Nao há luz que nao se veja
Da charneca
E nao me digas agora
Estás à espera
Penitência diz a hidra
Quando à seca
E se te enfias na toca
És como ela
Quero-me à minha vontade
Nao na tua
O hidra, diz-me a verdade
Nua e crua
Mais vale dar numa sarjeta
Que na mao
De quem nos inveja a vida
E tira o pao
Só os mortos não comem a mesa
E o cozinheiro não se incomodou
E quem fez o patrão também fez o criado
Foi assim que o planeta girou
Foi assim que o planeta girou
Quando tudo te corre a prazer
Vem amigos estender-te a mão
Mas se Deus ou o Diabo
Viram tudo ao contrário
Ninguém vem levantar-te do chão
Ninguém vem levantar-te do chão
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É PARA URGA
Que a gente vai
Para Urga caminho
Caminho para lá
Em Urga os bandidos
Não me hão-de apanhar
Eu hei-de vencer
Eu hei-de vencer
Entre mim e Urga
O deserto que houver
Em Urga recebo
A maquia e então
Vou tirar proveito
Do meu ganha-pão
É para Urga
Que a gente vai
Para Urga caminho
Caminho para lá
Em Urga os bandidos
Não me hão-de apanhar
Eu hei-de vencer
Eu hei-de vencer
Entre mim e Urga
O deserto que houver
Em Urga recebo
A maquia e então
Vou tirar proveito
Do meu ganha-pão.
Por trás daquela janela
Faz anos o meu amigo
E irmão
Não pôs cravos na lapela
Por trás daquela janela
Nem se ouve nenhuma estrela
Por trás daquele portão
Se aquela parede andasse
Se aquela parede andasse
Eu não sei o que faria
Não sei
Se a minha faca cortasse
Se aquela parede andasse
E um grito enorme se ouvisse
Duma criança ao nascer
Talvez o tempo corresse
Talvez o tempo corresse
E a tua voz me ajudasse
A cantar
Mais dura a pedra moleira
E a fé, tua companheira
Mais pode a flecha certeira
E os rios que vão pró mar
Por trás daquela janela
Por trás daquela janela
Faz anos o meu amigo
E irmão
Não pôs cravos na lapela
Por trás daquela janela
Nem se ouve nenhuma estrela
Por trás daquele portão
Na noite que segue ao dia
Na noite que segue ao dia
O meu amigo lá dorme
De pé
E o seu perfil anuncia
Naquela parede fria
Uma canção de alegria
No vai e vem da maré
Por trás daquela janela
Por trás daquela janela
Faz anos o meu amigo
E irmão
Não pôs cravos na lapela
Por trás daquela janela
Nem se ouve nenhuma estrela
Por trás daquele portão.