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NATAL DOS SIMPLES (OU DOS MENDIGOS)
Vamos cantar as janeiras
Vamos cantar as janeiras
Por esses quintais adentro vamos
A raparigas solteiras
Vamos cantar orvalhadas
Vamos cantar orvalhadas
Por esses quintais adentro vamos
A raparigas casadas
Vira o vento e muda a sorte
Vira o vento e muda a sorte
Por aqueles olivais perdidos
Foi-se embora o vento norte
Muita neve cai na serra
Muita neve cai na serra
Só
se lembra dos caminhos velhos
Quem tem saudades da terra
Quem tem a candeia acesa
Quem tem a candeia acesa
Rabanadas pão e vinho novo
Matava a fome à pobreza
Já nos cansa esta lonjura
Já nos cansa esta lonjura
Só se lembra dos caminhos velhos
Quem anda à noite à ventura
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BALADA DO SINO
Lá vem lá vem
Dim Dem
Na barquinha de Belém
Quem leva aí
Dão Dim
Na barquinha d'Aladim
Duma só vez
Dois, três
Na barquinha do Marquês
Casada vem
Dim Dem
Na barquinha é que vai bem
Deixe-a fugir
Dão Dim
Na barquinha do Vizir
Lá vai na mão
Dim Dão
Na barquinha do ladrão
Resineiro engraçado
Engraçado no falare
Ó I ó ai eu hei d'ir à terra dele
Ó I ó ai se ele me lá quiser levar
Já tenho papel e tinta
Caneta e mata borrão
Ó I ó ai p'ra escrever ao resineiro
Ó I ó ai que trago no coração
Resineiro é casado
É casado e tem mulher
Ó I ó ai vou escrever ó resineiro
Ó I ó ai quantas vezes eu quiser
Resineiro engraçado
Engraçado no falare
Ó I ó ai eu hei d'ir à terra dele
Ó I ó ai se ele me lá quiser levar
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CANÇÃO DE EMBALAR
Já a procurei e não a vi
Se ela não vier de madrugada
Outra que eu souber será pra ti
Ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô
Sobre o teu sorriso de encantar
Ouvirás cantando nas alturas
Trovas e cantigas de embalar
Ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô
Afina a garganta meu cantor
Quando a luz se apaga nas janelas
Perde a estrela d'alva o seu fulgor
Ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô
Se outra não vier para a render
Dorme quinda à noite é uma menina
Deixa-a vir também adormecer
Ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô
Ao romper do dia
Quantos se ouviram
Marchando a par
Batem à porta
Da hospedaria
Se for o vento
Manda-o entrar
Vejo uma espada
De sombra esguia
Se for o vento
Que venha só
Quem está lá fora
Traz companhia
Botas cardadas
Levantam pó
Venho de longe
Sem luz nem guia
Sou estrangeiro
Nao sou ninguém
Na flor queimada
Na cinza fria
Ó Tirana saudade
Saudade, ó minha saudadinha
Foste nada no Faial
No Faial baptizada na Achadinha
Saudade onde tu fores
Saudade leva-me podendo ser
Que eu quero ir acabar
Saudade onde tu foras morrer
A saudade é um luto
Um amor, um amor, uma paixão
É um cortinado roxo
Que me morde, que me morde o coração
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TECTO NA MONTANHA
Num lugar ermo
Só no meu abrigo
Aí terei meu tecto
E meu postigo
De longe em longe
À luz das madrugadas
Duas camisas
Quem não tem lavadas?
Aí serei meu dono
E companheiro
Dizei amigos
Se não sou solteiro
E se eu morrer
O tecto que não caia
Porque um mendigo
Dorme de atalaia
De quando em quando
Chamo o perdigueiro
Dizei amigos
Quem chega primeiro
Aí terei meu poiso
À luz da veia
Aí verei o sol
Duma janela
Tenho uma trompa
Tenho uma cascata
Tenho uma estrela
No bairro da lata
Olha o mar alto
Olha a maresia
Olha a montanha
Vem rompendo o dia
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ENDECHAS A BÁRBARA ESCRAVA
Aquela cativa que me tem cativo,
Porque nela vivo já não quer que viva.
Eu nunca vi rosa em suaves molhos,
Que pera meus olhos fosse mais formosa.
Nem no campo flores,
Nem no céu estrelas
Me parecem belas
Como os meus amores.
Rosto singular,
Olhos sossegados,
Pretos e cansados,
Mas não de matar.
Uma graça viva,
Que neles lhe mora,
Pera ser senhora
De quem é cativa.
Pretos os cabelos,
Onde o povo vão
Perde opinião
Que os louros são belos.
Pretidão de Amor,
Tão doce a figura,
Que a neve lhe jura
Que trocara a cor.
Leda mansidão,
Que o siso acompanha;
Bem parece estranha,
Mas bárbara não.
Presença serena
Que a tormenta amansa;
Nela, enfim, descansa
Toda a minha pena.
Esta é a cativa
Que me tem cativo;
E pois nela vivo,
É força que viva.
Cigano e maltês
Menino, não és boa rés
Abri uma cova
Na terra mais funda
Fiz dela a minha sepultura
Entrei numa gruta
Matei um tritão
Mas tive o diabo na mão
Já pronto a largar
E vi O diabo a tentar
Pedi-lhe um cruzado
Fiquei logo ali
Num leito de penas dormi
Puseram-me a ferros
Soltaram o cão
Mas tive o diabo na mão
De cilha e arnês
Amigo, vem cá outra vez
Subi uma escada
Ganhei dinheirama
Senhor D. Fulano Marquês
Perdi na roleta
Ganhei ao gamão
Mas tive o diabo na mão
Caí no lancil
E veio o diabo a ganir
Nadavam piranhas
Na lagoa escura
Tamanhas que nunca tal vi
Limpei a viseira
Peguei no arpão
Senhora do Almortão
ó minha linda raiana
virai costas a Castela
não queirais ser castelhana
Senhora do Almortão
a vossa capela cheira
cheira a cravos, cheira a rosas
cheira a flor de laranjeira
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VEJAM BEM
Vejam bem
que não há só gaivotas em terra
quando um homem se põe a pensar
quando um homem se põe a pensar
Quem lá vem
dorme à noite ao relento na areia
dorme à noite ao relento no mar
dorme à noite ao relento no mar
E se houver
uma praça de gente madura
e uma estátua
e uma estátua de de febre a arder
Anda alguém
pela noite de breu à procura
e não há quem lhe queira valer
e não há quem lhe queira valer
Vejam bem
daquele homem a fraca figura
desbravando os caminhos do pão
desbravando os caminhos do pão
E se houver
uma praça de gente madura
ninguém vem levantá-lo do chão
ninguém vem levantá-lo do chão
Vejam bem
que não há só gaivotas em terra
quando um homem
quando um homem se põe a pensar
Quem lá vem
dorme à noite ao relento na areia
dorme à noite ao relento no mar
dorme à noite ao relento no mar
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CANTARES DE ANDARILHO
do caselho à portelada
dei-lhes a minha inocência
elas não me deram nada.
ao lírio maninho
na Bouça da Fresta
no Casal Velido
erva cidreira
à erva veludo
na Lomba regueira
no Pinhal do Mudo.
andei ao lacrau
no Monte do Manso
na Espera do Mau
vibra à carocha
ao corujão cego
na mata da Tocha
no rio Lágedo.
moço de S. Cipriano
já fui morto e inda vivo
vendi a alma ao Diabo.
p´ras filhas da feiticeira
parti-me em metade à loira
noutra metade à morena.