01/09/2020

AS SETE MULHERES DO MINHO

Interpretação: José Afonso
"Fura, Fura" (LP) (979)
Autor: José Afonso
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As sete mulheres do Minho
mulheres de grande valor
Armadas de fuso e roca
correram com o regedor

Essa mulher lá do Minho
que da foice fez espada
há-de ter na lusa história
uma página doirada

Viva a Maria da Fonte
com as pistolas na mão
para matar os Cabrais
que são falsos à Nação


ARCEBISPÍADA

Interpretação: José Afonso
"Enquanto Há Força" (LP) (1978)
Autor: José Afonso

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Pregais o Cristo de Braga
Fazeis a guerra na rua
Sempre virados prò céu
Sempre virados prà Virgem
A Santa Cruzada manda
Matar o chivo vermelho
Contra a foice e o martelo
Contra a alfabetizaçao
Curai de ganhar agora
Os vossos novos clientes
Além do pide e do bufo
Amigos do usurário
Além do latifundiário
Amigo do Capelao
"Abre Nuncio Vade Retro
Querem vender a naçao"
"A medicina é ateia
Nao cuida da salvaçao"
Que o diga o facultativo
Que o diga ocirurgiao
Que o digam as criancinhas
"Rezas sim, parteiras nao"
Se o Pinochet concordasse

Já em Fátima haveria
Mais de trinta mil vermelhos
A arder de noite e de dia
Caridade, a quanto obrigas
Só trinta mil voluntários
"Cristo reina Cristo vinga"
Nos vossos santos ovários
E também nos lampadários
E também nos trintanários
Abre Nuncio Vade Retro
Querem vender a naçao
O Carnaval da capela
O liturgia do altar
Já lá vem Camilo Torres
Com o seu fusil a sangrar
Igreja dos privilégios
Mataste o Cristo a galope
Também Franco, o assassino
Mandou benzer o garrote


ALTOS ALTENTES

Interpretação: José Afonso
"Como se Fora Seu Filho" (LP) (1983)
Autor: José Afonso

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Altos altentes
carapinos carapentes
Dá-lhe uma risada
E caem-lhe os dentes
Igrejinha pequenina
Sacristão revolvedor
A gente que nela mora
Toda veste duma cor
Carvalheira tem cem canos
Cada cano tem cem ninhos
Cada ninho tem cem ovos
Quantos são os passarinhos

ALÍPIO DE FREITAS

Interpretação: José Afonso
"Com as Minhas Tamanquinhas" (EP) (1976)
Autor: José Afonso
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Baía de Guanabara
Santa Cruz na fortaleza
Está preso Alípio de Freitas
Homem de grande firmeza
Em Maio de mil setenta
Numa casa clandestina
Com companheira e a filha
Caiu nas garras da CIA
Diz Alípio à nossa gente:
"Quero que saibam aí
Que no Brasil já morreram
Na tortura mais de mil
Ao lado dos explorados
No combate à opressao
Nao me importa que me matem
Outros amigos virao"
Lá no sertao nordestino
Terra de tanta pobreza
Com Francisco Juliao
Forma as ligas camponesas

Na prisao de Tiradentes
Depois da greve da fome
Em mais de cinco masmorras
Nao há tortura que o dome
Fascistas da mesma igualha
(Ao tempo Carlos Lacerda)
Sabei que o povo nao falha
Seja aqui ou outra terra
Em Santa Cruz há um monstro
(Só nao vê quem nao tem vista
Deu sete voltas à terra
Chamaram-lhe imperialista
Baía da Guanabara
Santa Cruz na fortaleza
Está preso Alípio de Freitas
Homem de grande firmeza


ALI ESTÁ O RIO

Interpretação: José Afonso
"Enquanto Há Força" (LP) (1978)
Autor: José Afonso

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Ali está o rio
Dois homens na margem estao
Se um dá um passo o outro hesita
Será um valente? O outro nao?
Bom negócio faz um deles
Tem o triunfo na mao
Do outro lado do rio
Só um come o fruto, o outra nao
Ao outro passo o p'rigo
Novos castigos virao
Se ambos venceram o rio
Só um tubo ganha o outro nao
Na margem já conquistada

Só um venceu a valer
Perdeu o outro a saúde
Mas nada ganhou pra viver
Quem diz "nós" saiba ver bem
Se diz a verdade ou nao
Ambos vencemos o rio
A mim quem me vence é o patrao


ADEUS, MUROS DE CUSTÓIAS

Interpretação: José Afonso
"José Afonso in Hamburg" (LP) (1976)
Autor: José Afonso

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Em Janeiro bebo o vinho
Em Fevereiro como o pão
Nem que chovam picaretas
Hás-de cair, Rei-Milhão

Adeus, cidade do Porto
Adeus muros de Custóias
Cantando à chuva e ao vento
Andei a enganar as horas

Tenho mais de mil amigos
Aqui não me sinto só
Cantarei ao desafio
Ninguém tenha de mim dó

Ó meu Portugal formoso
Berço de latifundiários
Onde um primeiro ministro
Já manda a merda os operários

Já hoje muito maroto
Se diz revolucionário
E faz da bolsa do povo
Cofre-forte do bancário

Camaradas lá do Norte
Venham ao Sul passear
Cá nas nossas cooperativas
Há sempre mais um lugar


ACHÉGATE A MIM, MARUXA

Interpretação: José Afonso
"Fura, Fura" (LP) (1979)
Autor: Tradicional galega /José Afonso

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Achégate a mim, Maruxa
chégate ben, moreniña
quérome casar contigo
serás miña mulleriña

Adeus, estrela brilante
compañeiriña da lua
moitas caras teño visto
mais como a tua ningunha

Adeus lubeiriña triste
de espaldas te vou mirando
non sei que me queda dentro
que me despido chorando


A NAU DE ANTÓNIO FARIA

Interpretação: José Afonso
"Como se Fora Seu Filho" (LP) (1983)
Autor: José Afonso

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Vai-se a vida e vem a morte
O mal que a todos domina
Reina o comércio da china
Às cavalitas da sorte

Dinheiro seja louvado
A cruz de cristo nas velas
Soprou o diabo nelas
Deu à costa um afogado

A guerra é coisa ligeira
Tudo vem do mal de ofício
Não pode haver desperdício
Nesta vida de canseira

Demanda o porto corsário
No caminho faz aguada
Ali findou seu fadário
Morreu de morte matada

A nau de antónio faria
Leva no bojo escondida
A cabeça de um corsário
Que lhes quis tirar a vida

Aljofre pérola rama
Eis os pecados do mundo
Assim vai a nau ao fundo
Sem arte a honra e a fama

Entre cristãos e gentios
Em gritos e altos brados
Para ganhar uns cruzados
Lançam-se mil desafios

Em vindo de veniaga
Com a vela solta ao vento
Um mouro é posto a tormento
Por não dizer quem lhe paga

Vou-me à costa à outra banda
Já vejo o rio amarelo
Foi no tempo do farelo
Agora é o rei quem manda

Faz-te à vela marinheiro
Rumo ao reino de sião
Antes do fim de janeiro
Hás-de ser meu capitão
.

A ACUPUNCTURA EM ODEMIRA


Interpretação: José Afonso
"Enquanto Há Força" (LP) (1978)
Autor: José Afonso
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Ainda bem que é verdade
Ainda bem que é mentira
A acupunctura em Odemira
Ainda bem que há quem viva
Em Odeceixe
E se peide à vontade
Na Rua Espinha de Peixe
Eu bem sei a Cergal a Super Bock
A volta ao mundo pelo Cabo de S. Roque
Em Abril àguas mil
Ponto final
Ainda bem que é para breve
O festival
Ainda bem que amanha
É a ciclorama
E o campeonato do mundo no primeiro programa
Ainda bem que apostei no totobola
Todos os dias sao santos, Dona Aurora


01/02/2020

BALADA DO MONDEGO


Interpretação: José Afonso
"Ao Vivo no Coliseu" (LP) (1983)
Autor: Artur Paredes
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BARRACAS OCUPAÇÃO


Interpretação: José Afonso
"Enquanto Há Força" (LP) (1978)
Autor: José Afonso
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Lá vêm subindo o abismo
Da sombra donde vieram
Já sem medo e sem vergonha
Virados prá luz do dia
Será esta a nossa porta?
Perguntavam um pouco inquietos
Por terem pla vez primeira
Quatro paredes e um tecto
Por certo ninguém lhes disse
Que são os heróis de agora
Maiores que Alexandre Magno
Numa batalha perfeita
Sem perguntar ao Estado
Qual o caminho a tomar
Correm risco correm penas
Quem sabe onde vão parar
Correm risco correm penas
Quem sabe onde vão parar
Lá vêm os nossos soldados
Esses, sim, sabemos quem são
Os nossos filhos, os nossos irmãos
Os nossos pais, diz a criança
Não tenhamos medo
Pois ninguém melhor
Poderá resolver
Esta luta
A favor de quem?
Ao lado de quem?
A favor de quem?
Ao lado de quem?
A favor de quem?
Ao lado de quem?
Vamos, coragem, chegou o momento
De preparar os nossos argumentos
Não tenhamos medo
São nossos amigos
Não tenhamos medo
São nossos amigos
São os nossos filhos,
Os nossos irmãos
Os nossos pais, diz a criança
Já estão a dobrar a rua
Lá vêm eles
Já estão a dobrar a rua
Lá vêm eles
Não tenhamos medo
Pois ninguém melhor
Poderá resolver
Esta luta
Maravilha maravilha
Venham ver o barco doido
Sem amarras que o segurem
Pela porta entra a maré
Venham ver a barco doido
Água cai pela chaminé
Venham ver a barco doido
Água cai pela chaminé
Maravilha maravilha
Já vejo os móveis dançar
Entra a água pela porta
O telhado vai tombar
Quando o mar se enfurece
Andamos em rodopio
Sobre caminhos de prata
Correm lágrimas a fio

CANARINHO

Interpretação: José Afonso
"Como se Fora Seu Filho" (LP) (1983)
Autor: José Afonso
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O canarinho cai
No cantarinho ai
Do canarinho
O cantarinho cai
Na canarinho ai
Do canarinho
O alarido sai
Do arruído ai
Do alarido
O arruído sai
Do alarido ai
Do arruído
O vagabundo vai
A cada mundo ai
Do vagabundo
A cada mundo vai
O vagabundo ai
Do cada mundo
O cavalinho vai
De vagarinho ai
Do cavalinho
O vagarinho vai
De cavalinho ai
Do vagarinho

CANÇÃO DA PACIÊNCIA


Interpretação: José Afonso
"Como se Fora Seu Filho" (LP) (1983)
Autor: José Afonso
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Muitos sóis e luas irão nascer
Mais ondas na praia rebentar
Já não tem sentido ter ou não ter
Vivo com o meu ódio a mendigar
Tenho muitos anos para sofrer
Mais do que uma vida para andar
Beba o fel amargo até morrer
Já não tenho pena sei esperar
A cobiça é fraca melhor dizer
A vida não presta para sonhar
Minha luz dos olhos que eu vi nascer
Num dia tão breve a clarear
As àguas do rio são de correr
Cada vez mais perto sem parar
Sou como o morcego vejo sem ver
Sou como o sossego sei esperar

02/01/2020

CANÇÃO DO MEDO

Interpretação: José Afonso
"Como se Fora Seu Filho" (LP) (1983)
Autor: José Afonso

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Minha mãe como não morro
À vista desta carnagem
Dou por mal paga a viagem
A tais foguetes não corro

Não sei dos meus lavagantes
Nem da mulher que me espera
Quero sair desta guerra
Mesmo agora neste instante

Ai carnes do meu padrinho
Podeis tremer à vontade
Que a vida do teu sobrinho
Vale bem a tua idade

E mais a tua canseira
Em me ensinares que não dorme
Aquele que mata a fome
A quem só tem caganeira

Livra-me dos teus cuidados
Rezo dois mil padre-nossos
Assim me cuidem dos ossos
Sejam eles mil diabos

Agora tenho cagaço
Como quando era menino
E me tolhiam os braços
Temores ao verbo Divino

Levanta ferro meu corpo
Vê se podes dar um passo
Valham-me todos os santos
Das caminhadas que faço

Tão pouco pode a natura
Nestas afrontas mortais
Que um homem morre mil vezes
Mil e uma é já demais

01/01/2020

CHULA DA PÓVOA 

Interpretação: José Afonso
"Com as Minhas Tamanquinhas" (LP) (1976)
Autor: José Afonso

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Em Janeiro bebo o vinho
Em Fevereiro como o pao
Nem que chovam picaretas
Hás-de cair, Rei-Milhao
Adeus, cidade do Porto
Adeus muros de Custóias
Cantando à chuva e ao vento
Andei a enganar as horas
Tenho mais de mil amigos
Aqui nao me sinto só
Cantarei ao desafio
Ninguém tenha de mim dó
O meu Portugal formoso
Berço de latifundiários
Onde um primeiro ministro
Já manda a merda os operários
Já hoje muito maroto
Se diz revolucionário
E faz da bolsa do povo
Cofre-forte do bancário
Camaradas lá do Norte
Venham ao Sul passear
Cá nas nossas cooperativas
Há sempre mais um lugar
 

COM AS MINHAS TAMANQUINHAS 



Interpretação: José Afonso
"Com as Minhas Tamanquinhas" (EP) (1976)
Autor: José Afonso
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A fadiga é um dom da natureza
Chiça!
Com as minhas tamanquinhas
Com as minhas
Com as minhas tamanquinhas
P'ra quem nao faz fortuna
Mata as penas e faz covinhas
Pela calçada desliza o operário
A modista
O alfaiate
Metidos num alicate
Depois da festa, menina
Muita gente se amofina
E o fanqueiro? A ferrugem?
E o canalha?
Mete-os na forma
Queime-os na fornalha

COMO SE FAZ UM CANALHA


Interpretação: José Afonso
"Com as Minhas Tamanquinhas" (EP) (1976)
Autor: José Afonso
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Conheci-te ainda moço
Ou como tal eu te via
Habitavas o Procópio
Ias ao Napoleao
Mas ninguém sabia ao certo
Como se faz um canalha
Se a memória me nao falha
Tinhas o mundo na mao
Alguma gente enganaste
(A fé da muita amizade
Tem também as suas falhas
Hoje fazes alianças
A bem da Santa Uniao
Em abono da verdade
A tua Universidade
Tem mesmo um nome: Traiçao
Um social-democrata
Nao foge ao Grao-Timoneiro
Basta citar o paleio
O major psicopata
Já sao tantos namorados
Só falta o Holden Roberto
Devagar se vai ao longe
Nunca te vimos tao perto
Nunca te vimos tao longe
Daquilo que tens pregado
Nunca te vimos tao fora
Da vida do Zé Soldado
Ninguém mais te peça meças
No folgor dos gabinetes
Hás-de acabar às avessas
Barricado até aos dentes
És um produto de sala
Rasputim cá dos Cabrais
Estas sempre em traje de gala
A brincar aos carnavais
Nos anais do mundanismo
A nossa história recente
Falará com saudosismo
Dum grande Lugar-Tenente
Sao tudo favas-contadas
No país da verborreia
Uma brilhante carreira
Dá produto todo o ano
Digamos pra ser exacto
Assim se faz um canalha
Se a memória nao me falha
Já te mandei prò Caetano

DE NÃO SABER O QUE ME ESPERA

 

Interpretação: José Afonso
"
Fura Fura" (LP) (1979)
Autor: José Afonso

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De nao saber o que me espera
Tirei a sorte à minha guerra
Recolhi sombras onde vira
Luzes de orvalho ao meio-dia
Vítima de só haver vaga
Entre uma mao e uma espada
Mas que maneira bicuda
De ir à guerra sem ajuda
Viemos pelo sol nascente
Vingamos a madrugada
Mas nao encontramos nada
Sol e àgua sol e àgua
De linhas tortas havia
Um pouco de maresia
Mas quem vencer esta meta
Que diga se a linha é recta

DE QUEM FOI A TRAIÇÃO 

 

Interpretação: José Afonso
"
Fura Fura" (LP) (1979)
Autor: José Afonso

**********************

José do Telhado
Sozinho e perdido
É um lobo do mato
Acossado

De quem foi a traição?
De quem foi a traição?

José do Telhado
Trocado e vendido
É um lobo
Do mato
Fugido

De quem foi a traição?
De quem foi a traição?

José do Telhado
O traidor
Que o vendeu
Bem merece
Sofrer
O castigo

De quem foi a traição?
De quem foi a traição?

José do Telhado
Vai-se vingar
O traidor vai pagar
O traidor vai pagar

DE SAL DE LINGUAGEM FEITA


Interpretação: José Afonso
"
Fura Fura" (LP) (1979)
Autor: José Afonso

**********************

De sal de linguagem feita
Numa verruma que atava
A lingua presa do jeito
A forma de ser escrava
O apito do comboio
Que não dizia de onde era
O sinal, a mordedura
A visita que não vem
O corredor, o tapume
A sala vedada às feras
O frenesim das gibóias
Em guarda, o soldo, a comida,
A cozedura do pleito
O cheiro a papel selado
Um cantinho de amargura
Um raio de sol queimado,
Junto do bolso do fato
A morte a vida a vitória
Diga lá minha menina
Se acredita nesta história

DÉCADA DE SALOMÉ

 

Interpretação: José Afonso
"
 Galinhas do Mato" (LP) (1985)
Autor: José Afonso

**********************

Vai terminar esta prosa
Estamos na década de Salomé
Será o Apocalipse ou a torneira
a pingar no bidé?

É meio dia dia de feira
mensal em Vila Nogueira
Estamos na década do bricolage
Diz o jornal que um emigra
morreu afogado em Mira
Antes da data
Do mariage

Estamos na Europa
civilizada
já cá faltava
uma maison
pour la patrie
p´lo Volkswagen
acabou-se a forragem
viva o patron!

Já tem destino esta terra
vamos mudar para o marché aux puces
o tempo das ceroilas está no fio
agora só de trousses.

É meio dia dia de feira
mensal em Vila Nogueira
Estamos na década do bricolage
Diz o jornal que um emigra
morreu afogado em Mira
Antes da data
Do mariage.

Saem quarenta mil ovos moles
Vilar Formoso
é logo ali
faz-se um enxerto
com mijo de gato
Sola de sapato
voilá Paris!

Aos grandes supermercados
chega cultura num bi-camion
Camões e Eça vendem-se enlatados
lavados com «champon»

É meio dia dia de feira
mensal em Vila Nogueira
Estamos na década do bricolage
Diz o jornal que um emigra
morreu afogado em Mira
Antes da data
Do mariage

Estamos na Europa
radarizada
já cá faltava
uma turquês
para o controle
do bravo e do manso
vivaço e do tanso
em cada mês!

A fina flor do entulho
largou o pêlo ganhou verniz
Será o Christian Dior o manajeiro
a mandar no país?

Estamos da Europa
do «estou-me nas tintas»
nada de colectivismos
chacun por si, meu
e chcaun por soi
tê vê e cama
depois da esgaça
até que lhes dê a traça
a culpa é toda
do erre Hagá.

Levam-te à caça
dos gambuzinos
com dois ouriços
em cada mão
ai velha fibra
do bairro de Alfama
a carcaça do Gama
vai a leilão!

DOR NA PLANÍCIE

 

Interpretação: José Afonso
"
Ao Vivo no Coliseu" (LP) (1983)
Autor: Octávio Sérgio

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EM TERRAS DE TRÁS-OS MONTES

 

Interpretação: José Afonso
"
Com as Minhas Tamanquinhas" (EP) (1976)
Autor: José Afonso

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Em terras de Trás-os-Montes
Entre Coelhoso e Parada
Uma história verdadeira
Foi ali mesmo contada

Algemado por dois pides
Na manha de vinte e três
La vai Manuel Augusto
Sem mesmo saber porquê

Com ele vai Marcolino
Bufo dos Dominadores
Ide às minas da Ribeira
Vereis quem são os Senhores

Nesse lugar de trabalho
Nos confins da exploracão
Diz o Marcolino aos pides
Apertem-me esse cabrão

Não contente com a prova
Do zelo que assim mostra
Àquele rapaz honrado
Esta fala então lhe dava:

Sabemos da tua vida
Amanhã por esta hora
Irás para o forte de Elvas
Diz adeus à vida boa

Também o José António
Foi na mesma interrogado
Assassino Marcolino
Foste o primeiro culpado

Entre Parada e Coelhoso
Ainda reina a opressão
Não deixem fugir o melro
Não quebrem vossa união


ENQUANTO HÁ FORÇA

 

Interpretação: José Afonso
"
Enquanto Há Força" (LP) (1978)
Autor: José Afonso

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Enquanto há força
No braço que vinga
Que venham ventos
Virar-nos as quilhas
Seremos muitos
Cantai rapazes
Dançai raparigas
E vós altivas
Cantai também
Levanta o braço
Faz dele uma barra
Que venha a brisa
Lavar-nos a cara
Seremos muitos
Seremos alguém
Cantai rapazes
Dançai raparigas
E vós altivas
Cantai também