01/01/2023

1963 "Baladas de Coimbra"


MENINO DO BAIRRO NEGRO

Olha o sol que vai nascendo

Anda ver o mar

Os meninos vão correndo

Ver o sol chegar


Menino sem condição

Irmão de todos os nus

Tira os olhos do chão

Vem ver a luz


Menino do mal trajar

Um novo dia lá vem

Só quem souber cantar

Vira também


Negro bairro negro

Bairro negro

Onde não há pão

Não há sossego


Menino pobre o teu lar

Queira ou não queira o papão

Há-de um dia cantar

Esta canção


Olha o sol que vai nascendo

Anda ver o mar

Os meninos vão correndo

Ver o sol chegar


Se até dá gosto cantar

Se toda a terra sorri

Quem te não há-de amar

Menino a ti


Se não é fúria a razão

Se toda a gente quiser

Um dia hás-de aprender

Haja o que houver


Negro bairro negro

Bairro negro

Onde não há pão

Não há sossego


Menino pobre o teu lar

Queira ou não queira o papão

Há-de um dia cantar

Esta canção

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AS POMBAS

Pombas brancas

Que voam altas

Riscando as sombras

Das nuvens largas

Lá vão


Pombas que não voltam

Trazem dentro

Das asas prendas

Nos bicos rosas

Nuvens desfeitas

No mar


Pombas do meu cantar

Canto apenas

Lembranças várias

Vindas das sendas

Que ninguém sabe

Onde vão


Pombas que não voltam

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OS VAMPIROS

No céu cinzento sob o astro mudo

Batendo as asas pela noite calada

Vêm em bandos com pés de veludo

Chupar o sangue fresco da manada

 

Eles comem tudo, eles comem tudo

Eles comem tudo e não deixam nada

 

Se alguém se engana com seu ar sisudo

E lhes franqueia as portas à chegada

Eles comem tudo, eles comem tudo

Eles comem tudo e não deixam nada

 

A toda a parte chegam os vampiros

Poisam nos prédios poisam nas calçadas

Trazem no ventre despojos antigos

Mas nada os prende às vidas acabadas

 

Eles comem tudo, eles comem tudo

Eles comem tudo e não deixam nada

 

No chão do medo tombam os vencidos

Ouvem-se os gritos na noite abafada

Jazem nos fossos vítimas dum credo

E não se esgota o sangue da manada

 

Eles comem tudo, eles comem tudo

Eles comem tudo e não deixam nada

 

São os mordomos do universo todo

Senhores à força mandadores sem lei

Enchem as tulhas bebem vinho novo

Dançam a ronda no pinhal do rei

 

Eles comem tudo, eles comem tudo

Eles comem tudo e não deixam nada

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CANÇÃO VAI... E VEM

Em rosa clara te vi

Rosa morta te deixei

Em rosa clara

algum dia te verei


Na lua vinda te fiz

Lua finda te entreguei

Eras ela o que seria

saberei


Ai amor amores

tenho eu mais dum cento

bonecas primores

cabeças de vento


Cabeças de vento

não as quero eu não

ai amor amores

do meu coração


Em noite larga te ardi

madrugada te apaguei

num retorno que te viva

te amarei


Em rosa clara te vi

Rosa morta te deixei

Em rosa clara

algum dia te verei


Ai amores, amores

tenho eu mais dum cento

bonecas primores

cabeças de vento


Cabeças de vento

não as quero eu não

ai amor, amores

do meu coração