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RIO LARGO DE PROFUNDIS
Rio largo de profundis
Uma neta pra nascer
Amor avenidas novas
Praça de Londres a arder
Não quero martelo e rima
Aqui no Largo da Graça
Quero ficar onde estou
Para salvar a quem passa
João, Francisco, Maria,
Cada qual um nome tem
Quando vos deu os bons dias
Ninguém responde a ninguém
Venha duma outra vontade
Lá eu soubera dizer
Amor avenidas novas
Praça de Londres a arder
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ERA UM REDONDO VOCÁBULO
Era um redondo vocábulo
Uma soma agreste
Revelavam-se ondas
Em maninhos dedos
Polpas seus cabelos
Resíduos de lar,
Pelos degraus de Laura
A tinta caía
No móvel vazio,
Congregando farpas
Chamando o telefone
Matando baratas
A fúria crescia
Clamando vingança,
Nos degraus de Laura
No quarto das danças
Na rua os meninos
Brincando e Laura
Na sala de espera
Inda o ar educa
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NEFRETITE NÃO TINHA PAPEIRA
Nefretite não tinha papeira
Tuthankamon apetite
Já minha avó me dizia
Olha que a sopa arrefece
Nos funerais de antanho
As capicuas gritavam
E às escuras na cozinha
Já as galinhas dormiam
Manolo era o rei do fandango
Do fandaguilho picado
Maria se fores ao baile
Leva o casaco castanho
O rei João era dos tesos
Chamavam-lhe João dos Quintos
Lá na terra brasileira
Vinham quintais de Ouro Preto
Em suma a soma interessava
A quem interessa algum dia
De lingotes e pimentas
Ainda vamos ao fundo
Lá para o reino da Arábia
Havia amêndoas aos centos
Que grande rebaldaria
E a Palestina às escuras
Os Sheikes israelitas
Já que estou com a mão na massa
Lembram-me os Sheikes das fitas
Que dão porrada a quem passa
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ADEUS Ó SERRA DA LAPA
adeus que te vou deixar
ó minha terra ó minha enxada
não faço gosto em voltar
Companheiros de aventura
vinde comigo viajar
a noite é negra a vida é dura
não faço gosto em voltar
Dou-te o meu lenço bordado
quando de ti me apartar
eu quero ir prò outro lado
não faço gosto em voltar
O meu dinheiro contado
é para quem me levar
o meu caminho está traçado
não faço gosto em voltar
Moirar a terra insegura
fugir de serra e do mar
meus companheiros de aventura
tudo farei pra salvar
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VENHAM MAIS CINCO
Venham mais cinco, duma
assentada que eu pago já
Do branco ao tinto, se
o velho estica eu fico por cá
Se tem má pinta, dá-lhe
um apito e põe-no para andar
De espada na cinta, já
crê que é rei de quem e além-mar
Gritar
Que já é tempo de
embalar a trouxa
E zarpar
Eu bem sei
Mas há quem queira,
deitar abaixo
O que eu levantei
Mais dura é a razão que
a sustém
Só nesta rusga
Não há lugar prós
filhos da mãe
Como era a lei
Na minha terra, quem
trepa
No coqueiro é o rei
Mais dura é a razão que
a sustem
Só nesta rusga
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A FORMIGA NO CARREIRO
Lerpou trepou às tábuas (bis)
que flutuavam nas águas (bis)
e do cimo de uma delas
virou-se para o formigueiro
mudem de rumo (bis)
já lá vem outro carreiro
A formiga no carreiro
vinha em sentido diferente
caiu à rua
no meio de toda a gente
Buliu abriu as gâmbeas
para trepar às varandas
e do cimo de uma delas
Mudem de rumo mudem de rumo
Já lá vem outro carreiro
A formiga no carreiro
andava à roda da vida
caiu em cima
de uma espinhela caída
Furou à brava
numa cova que ali estava
e do cimo de uma delas
Virou se pró formigueiro
Mudem de rumo mudem de rumo
Já lá vem outro carreiro
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QUE AMOR NÃO ME ENGANA
Que amor não me engana
Com a sua brandura
Se da antiga chama
Mal vive a amargura
Duma mancha negra
Duma pedra fria
Que amor não se entrega
Na noite vazia?
E as vozes embarcam
Num silêncio aflito
Quanto mais se apartam
Mais se ouve o seu grito
Muito à flor das àguas
Noite marinheira
Vem devagarinho
Para a minha beira
Em novas coutadas
Junto de uma hera
Nascem flores vermelhas
Pela Primavera
Assim tu souberas
Irmã cotovia
Dizer-me se esperas
Pelo nascer do dia
E as vozes embarcam
Num silêncio aflito
Quanto mais se apartam
Mais se ouve o seu grito
Muito à flor das àguas
Noite marinheira
Vem devagarinho
Para a minha beira.
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PAZ POETA E POMBAS
A Paz viajou em busca da silêncio
Sitiou Berlim
Abdicou em Londres
A Paz saltou dos olhos do poeta
Atacada de psicose maniaco-depressiva
Foi nessa altura que as pombas
Solicitaram nas agências as tarifas
Mas não viram mais o poeta
Que gozava na Suiça
Duma licença graciosa
A Paz saiu aos saltos para a rua
Comeu mostarda
Bebeu sangria
A Paz sentou-se em cima duma grua
Atacada de astenia
Foi nessa altura que as pombas
Solicitaram nas agências as tarifas
Mas não viram mais o poeta
Que gozava na Suiça
Duma licença graciosa
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SE VOARAS MAIS AO PERTO
Se voaras mais ao perto
Poisavas noutra vidraça
Com o teu bico dentado
Trazias mais um na asa
Vem longe o dia da monda
Não é tempo de mondar
Ó Cigana ó ciganinha
Que nome te hei-de eu dar
Andorinha de asa preta
Vai gritando em altos brados
Chega-te à minha janela
Livra-me destes cuidados
Se voara como ela
A tua sorte era a minha
Diz-me lá ó ciganinha
O que nos quer a andorinha
O que nos quer a andorinha
Bem gostara de saber
O mundo é bola de fogo
Nem todos ficam a arder.
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GASTÃO ERA PERFEITO
Gastão era perfeito
Conduzido por seu dono
Em sanolências afeito
Às picadas dos mosquitos
Era Gastão milionário
Vivia em tapetes raros
Se lhe viravam as costas
Chamava logo a polícia
Em crises de malquerência
Vinha-lhe o gosto pla soda
Mas ninguém se abespinhava
Que enviuvasse às ocultas
Nem Gastão se apercebia
De quanto a vida o prendara
Entre estiletes de prata
E colchas de seda fina
Gastão era deste jeito
Fazia provas reais
Gastão era um parapeito
De Papas e Cardeais
Vinha-lhe só por fastio
Nos tiquetaques da vida
Um solene desfastio
Pela mãe que era entrevada
Mandava bombons recados
Por mensageiros aflitos
Não fora Gastão dos fracos
E já seria ministro
Conheci-o em Alverca
Num bidon de gasolina
Tinha um pneu às avessas
Mas de asma é que sofria
No solestício de Junho
A quem o quisesse ouvir
Dizia que era sobrinho
Do Fernão Peres de Trava
Querem saber de Gastão?
Vão ao Palácio da Pena
Usa agora capachinho
E gosta de codornizes
Gastão era perfeito
Conduzido por seu dono
Em sanolências afeito
Às picadas dos mosquitos
Tem um sinal que o indica
Como o mais forte Doutor
Espeta o dedo no queixo
E diz que é Nosso Senhor.