02/01/2020

CANÇÃO DO MEDO

Interpretação: José Afonso
"Como se Fora Seu Filho" (LP) (1983)
Autor: José Afonso

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Minha mãe como não morro
À vista desta carnagem
Dou por mal paga a viagem
A tais foguetes não corro

Não sei dos meus lavagantes
Nem da mulher que me espera
Quero sair desta guerra
Mesmo agora neste instante

Ai carnes do meu padrinho
Podeis tremer à vontade
Que a vida do teu sobrinho
Vale bem a tua idade

E mais a tua canseira
Em me ensinares que não dorme
Aquele que mata a fome
A quem só tem caganeira

Livra-me dos teus cuidados
Rezo dois mil padre-nossos
Assim me cuidem dos ossos
Sejam eles mil diabos

Agora tenho cagaço
Como quando era menino
E me tolhiam os braços
Temores ao verbo Divino

Levanta ferro meu corpo
Vê se podes dar um passo
Valham-me todos os santos
Das caminhadas que faço

Tão pouco pode a natura
Nestas afrontas mortais
Que um homem morre mil vezes
Mil e uma é já demais

01/01/2020

CHULA DA PÓVOA 

Interpretação: José Afonso
"Com as Minhas Tamanquinhas" (LP) (1976)
Autor: José Afonso

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Em Janeiro bebo o vinho
Em Fevereiro como o pao
Nem que chovam picaretas
Hás-de cair, Rei-Milhao
Adeus, cidade do Porto
Adeus muros de Custóias
Cantando à chuva e ao vento
Andei a enganar as horas
Tenho mais de mil amigos
Aqui nao me sinto só
Cantarei ao desafio
Ninguém tenha de mim dó
O meu Portugal formoso
Berço de latifundiários
Onde um primeiro ministro
Já manda a merda os operários
Já hoje muito maroto
Se diz revolucionário
E faz da bolsa do povo
Cofre-forte do bancário
Camaradas lá do Norte
Venham ao Sul passear
Cá nas nossas cooperativas
Há sempre mais um lugar
 

COM AS MINHAS TAMANQUINHAS 



Interpretação: José Afonso
"Com as Minhas Tamanquinhas" (EP) (1976)
Autor: José Afonso
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A fadiga é um dom da natureza
Chiça!
Com as minhas tamanquinhas
Com as minhas
Com as minhas tamanquinhas
P'ra quem nao faz fortuna
Mata as penas e faz covinhas
Pela calçada desliza o operário
A modista
O alfaiate
Metidos num alicate
Depois da festa, menina
Muita gente se amofina
E o fanqueiro? A ferrugem?
E o canalha?
Mete-os na forma
Queime-os na fornalha

COMO SE FAZ UM CANALHA


Interpretação: José Afonso
"Com as Minhas Tamanquinhas" (EP) (1976)
Autor: José Afonso
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Conheci-te ainda moço
Ou como tal eu te via
Habitavas o Procópio
Ias ao Napoleao
Mas ninguém sabia ao certo
Como se faz um canalha
Se a memória me nao falha
Tinhas o mundo na mao
Alguma gente enganaste
(A fé da muita amizade
Tem também as suas falhas
Hoje fazes alianças
A bem da Santa Uniao
Em abono da verdade
A tua Universidade
Tem mesmo um nome: Traiçao
Um social-democrata
Nao foge ao Grao-Timoneiro
Basta citar o paleio
O major psicopata
Já sao tantos namorados
Só falta o Holden Roberto
Devagar se vai ao longe
Nunca te vimos tao perto
Nunca te vimos tao longe
Daquilo que tens pregado
Nunca te vimos tao fora
Da vida do Zé Soldado
Ninguém mais te peça meças
No folgor dos gabinetes
Hás-de acabar às avessas
Barricado até aos dentes
És um produto de sala
Rasputim cá dos Cabrais
Estas sempre em traje de gala
A brincar aos carnavais
Nos anais do mundanismo
A nossa história recente
Falará com saudosismo
Dum grande Lugar-Tenente
Sao tudo favas-contadas
No país da verborreia
Uma brilhante carreira
Dá produto todo o ano
Digamos pra ser exacto
Assim se faz um canalha
Se a memória nao me falha
Já te mandei prò Caetano

DE NÃO SABER O QUE ME ESPERA

 

Interpretação: José Afonso
"
Fura Fura" (LP) (1979)
Autor: José Afonso

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De nao saber o que me espera
Tirei a sorte à minha guerra
Recolhi sombras onde vira
Luzes de orvalho ao meio-dia
Vítima de só haver vaga
Entre uma mao e uma espada
Mas que maneira bicuda
De ir à guerra sem ajuda
Viemos pelo sol nascente
Vingamos a madrugada
Mas nao encontramos nada
Sol e àgua sol e àgua
De linhas tortas havia
Um pouco de maresia
Mas quem vencer esta meta
Que diga se a linha é recta

DE QUEM FOI A TRAIÇÃO 

 

Interpretação: José Afonso
"
Fura Fura" (LP) (1979)
Autor: José Afonso

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José do Telhado
Sozinho e perdido
É um lobo do mato
Acossado

De quem foi a traição?
De quem foi a traição?

José do Telhado
Trocado e vendido
É um lobo
Do mato
Fugido

De quem foi a traição?
De quem foi a traição?

José do Telhado
O traidor
Que o vendeu
Bem merece
Sofrer
O castigo

De quem foi a traição?
De quem foi a traição?

José do Telhado
Vai-se vingar
O traidor vai pagar
O traidor vai pagar

DE SAL DE LINGUAGEM FEITA


Interpretação: José Afonso
"
Fura Fura" (LP) (1979)
Autor: José Afonso

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De sal de linguagem feita
Numa verruma que atava
A lingua presa do jeito
A forma de ser escrava
O apito do comboio
Que não dizia de onde era
O sinal, a mordedura
A visita que não vem
O corredor, o tapume
A sala vedada às feras
O frenesim das gibóias
Em guarda, o soldo, a comida,
A cozedura do pleito
O cheiro a papel selado
Um cantinho de amargura
Um raio de sol queimado,
Junto do bolso do fato
A morte a vida a vitória
Diga lá minha menina
Se acredita nesta história

DÉCADA DE SALOMÉ

 

Interpretação: José Afonso
"
 Galinhas do Mato" (LP) (1985)
Autor: José Afonso

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Vai terminar esta prosa
Estamos na década de Salomé
Será o Apocalipse ou a torneira
a pingar no bidé?

É meio dia dia de feira
mensal em Vila Nogueira
Estamos na década do bricolage
Diz o jornal que um emigra
morreu afogado em Mira
Antes da data
Do mariage

Estamos na Europa
civilizada
já cá faltava
uma maison
pour la patrie
p´lo Volkswagen
acabou-se a forragem
viva o patron!

Já tem destino esta terra
vamos mudar para o marché aux puces
o tempo das ceroilas está no fio
agora só de trousses.

É meio dia dia de feira
mensal em Vila Nogueira
Estamos na década do bricolage
Diz o jornal que um emigra
morreu afogado em Mira
Antes da data
Do mariage.

Saem quarenta mil ovos moles
Vilar Formoso
é logo ali
faz-se um enxerto
com mijo de gato
Sola de sapato
voilá Paris!

Aos grandes supermercados
chega cultura num bi-camion
Camões e Eça vendem-se enlatados
lavados com «champon»

É meio dia dia de feira
mensal em Vila Nogueira
Estamos na década do bricolage
Diz o jornal que um emigra
morreu afogado em Mira
Antes da data
Do mariage

Estamos na Europa
radarizada
já cá faltava
uma turquês
para o controle
do bravo e do manso
vivaço e do tanso
em cada mês!

A fina flor do entulho
largou o pêlo ganhou verniz
Será o Christian Dior o manajeiro
a mandar no país?

Estamos da Europa
do «estou-me nas tintas»
nada de colectivismos
chacun por si, meu
e chcaun por soi
tê vê e cama
depois da esgaça
até que lhes dê a traça
a culpa é toda
do erre Hagá.

Levam-te à caça
dos gambuzinos
com dois ouriços
em cada mão
ai velha fibra
do bairro de Alfama
a carcaça do Gama
vai a leilão!

DOR NA PLANÍCIE

 

Interpretação: José Afonso
"
Ao Vivo no Coliseu" (LP) (1983)
Autor: Octávio Sérgio

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EM TERRAS DE TRÁS-OS MONTES

 

Interpretação: José Afonso
"
Com as Minhas Tamanquinhas" (EP) (1976)
Autor: José Afonso

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Em terras de Trás-os-Montes
Entre Coelhoso e Parada
Uma história verdadeira
Foi ali mesmo contada

Algemado por dois pides
Na manha de vinte e três
La vai Manuel Augusto
Sem mesmo saber porquê

Com ele vai Marcolino
Bufo dos Dominadores
Ide às minas da Ribeira
Vereis quem são os Senhores

Nesse lugar de trabalho
Nos confins da exploracão
Diz o Marcolino aos pides
Apertem-me esse cabrão

Não contente com a prova
Do zelo que assim mostra
Àquele rapaz honrado
Esta fala então lhe dava:

Sabemos da tua vida
Amanhã por esta hora
Irás para o forte de Elvas
Diz adeus à vida boa

Também o José António
Foi na mesma interrogado
Assassino Marcolino
Foste o primeiro culpado

Entre Parada e Coelhoso
Ainda reina a opressão
Não deixem fugir o melro
Não quebrem vossa união


ENQUANTO HÁ FORÇA

 

Interpretação: José Afonso
"
Enquanto Há Força" (LP) (1978)
Autor: José Afonso

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Enquanto há força
No braço que vinga
Que venham ventos
Virar-nos as quilhas
Seremos muitos
Cantai rapazes
Dançai raparigas
E vós altivas
Cantai também
Levanta o braço
Faz dele uma barra
Que venha a brisa
Lavar-nos a cara
Seremos muitos
Seremos alguém
Cantai rapazes
Dançai raparigas
E vós altivas
Cantai também


ESCANDINÁVIA BAR-FUZETA

 

Interpretação: José Afonso
“Galinhas do Mato" (LP) (1985)
Autor: José Afonso

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Se o gageiro de outras eras
Subisse de novo à gávea
Diria p´rá marinhagem
Já se avista a "escandinávia"

Senhora do Bom Sucesso
Diz-me onde irei almoçar
Não quero sola de molho
Tenho as tripas a estalar

Entra naquele fiorde
Onde a terra encobre o mar
Se queres comer como um lord
no Escandinávia-bar

Sem rendas de mesa fina
O choco é bicho moderno
Naquele lugar fraterno
Goza de geral estima

Já vai passando à história
O tempo em que não entrava
Um pescador no café
Onde a finesse abancava

Nesses tempos de castigo
(Só de pensar estremeço)
Dizia cá pra comigo
nem tudo o que digo penso

Ali não entra o Tenreiro
Nem cavalos de alta roda
Mas já lá vi um torneiro
Beber whisky com soda

À puridade vos digo
Desde a noite ao romper d´alva
Comi uns chocos com tinta
Vi um búzio a bater palmas

Digo tudo quanto é franco
Em prol da sardinha assada
Vi rebentar as costuras
De um fulana alentada

Por isso não te retenhas
Se tens pressa de chegar
Senhora do Bom Sucesso
Rumo ao Escandinávia-bar


EU DIZIA

 

Interpretação: José Afonso
“Como se Fora Seu Filho" (LP) (1983)
Autor: José Afonso

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Eu dizia
Quanto madura
me animavas
Seguindo a noite
Barco ou estrada
Sem rótulo
Sem luzes
Em vitória
Na mesma rota
De tanto compatriota
Entre o sol e a lua
Sereníssima
Rodavas em silêncio
noite fora
Fazíamos um norte
De vigília
Do lado da montanha
Ninguém chora

EU HEI-DE IR COLHER MARCELA

 

Interpretação: José Afonso
“República" (LP) (1975)
Autor: José Afonso

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EU, O POVO

 

Interpretação: José Afonso
“Enquanto Há Força" (LP) (1978)
Autor: José Afonso

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Eu, o Povo
Conheço a força da terra que rebenta a granada do grão
Fiz desta força um amigo fiel

O vento sopra com força
A água corre com força
O fogo arde com força

Nos meus braços que vão crescer vou estender panos de vela
Para agarrar o vento e levar a força do vento à produção
As minhas mãos vão crescer até fazerem pás de roda
Para agarrar a força da água e pô-la na produção
Os meus pulmões vão crescer soprando na forja do coração
Para agarrar a força do fogo na produção

Eu, o Povo
Vou aprender a lutar ao lado da Natureza
Vou ser camarada de armos dos quatro elementos

A táctica colonialista é deixar o Povo ao natural
Fazendo do Povo um inimigo da Natureza

Eu, o Povo Moçambicano
Vou conhecer as minhas grandes forças todas


FADO DA SUGESTÃO

 

Interpretação: José Afonso
“Fados de Coimbra e Outras Canções" (LP) (1981)
Autor: Felisberto Ferreirinha, Popular

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Não digas não dize sim,
Muito embora amor não sintas
Não digas não dize sim,
Muito embora amor não sintas
O não envenena a gente
Dize sim, inda que mintas
O não envenena a gente
Dize sim, inda que mintas
Não digas não dize sim,
Sê ao menos a primeira
Não digas não dize sim,
Sê ao menos a primeira
Falta-me embora à verdade,
Não sejas tão verdadeira
Falta-me embora à verdade,
Não sejas tão verdadeira.


FADO D'ANTO

 


Interpretação: José Afonso
“Fados de Coimbra e Outras Canções" (LP) (1981)
Autor: António Nobre, Francisco Menano

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A cabra da velha torre,
Meu amor, chama por mim;
Quando um estudante morre,
Os sinos tocam assim.
 
Ai quem me dera abraçar-te,
Junto ao peito assim, assim,
Levar-me a morte e levar-te
Toda abraçadinha a mim.

FADO DOS OLHOS CLAROS 

 

Interpretação: José Afonso
“Fados de Coimbra e Outras Canções" (LP) (1981)
Autor: Edmundo Bettencourt, Mário M. Fonseca

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A luz dos teus olhos claros
É uma estrela a lucilar
Que eu ora vejo no céu
Ora nas ondas do mar

É o olhar da claridade
É o olhar do luar na água
Sagrado espelho onde vejo
A sombra da minha mágoa


FOI NA CIDADE DO SADO

 

Interpretação: José Afonso
“Viva o Poder Popular" (Single) (1975)
Autor: José Afonso

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Foi na cidade do Sado
No pavilhão do Naval
Havia uma bronca armada
Pelas bestas do capital

Aos sete do mês de Março
Quinta-feira já se ouvia
Dizer a boca calada
Que o PPD era a CIA

Uma tarjeta laranja
Convite ao povo fazia:
Venham todos ao comício
Da Social Democracia

Eram talvez quatrocentos
Gritando a plenos pulmões:
Abaixo o capitalismo
Não queremos mais tubarões

Lá dentro sessenta manos
Do PPD exibiam
Matracas e armas de fogo
E o mais que os outros não viam

A um sinal combinado
Já quente a polícia vem
Arreia, polícia, arreia
Que o Totta-Acores paga bem

Amigo arrebenta a porta
Que te vão para matar
As bestas já fazem fogo
Lá fora tens de lutar

Os gases lacrimogénios
E os tiros que então partia
Mais os cordões da polícia
Os Pê Pê Dês protegiam

Cai morto João Manuel
De nascimento algarvio
Dezoito já eram feridos
Ficou o Naval vazio

Justiça pela noite fora
Pediu o povo na rua
Morte à polícia assassina
Amigo a vitória é tua

Aos onze do mesmo mês
Às onze horas do dia
Enquanto o João passava
Enquanto o João jazia

Do outro lado do rio
Morre o soldado Luís
Soldado filho do Povo
Vamos fazer um País


FOI NO SÁBADO PASSADO

 

Interpretação: José Afonso
“República" (LP) (1975)
Autor: José Afonso
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Foi no sábado passado
muitos compagni vieram
à manife que fizeram
no lugar mais afamado
ali todos juntos eram
muitos mil do nosso lado
Aos gritos de Franco boia
(Franco, Soares, Pinochet)
já Roma lembrava Tróia
na garrota tutti tre
vinguemos os cinco mortos
morte ao fascismo: vencer!
Dia internacionalista
não faltava o militar
apoiando os companheiros
portugueses e a cantar:
"Viva Portogallo Rosso"
"Criar Poder Popular"
Quisera lembrar agora
naquela semana finda
esquerda rivolucionária
Vanguarda e Lotta Cantinua
toda a força a classe operária
ouve-se em Lisboa ainda
Franco boia Franco boia
todo o crime tem um preço
o teu regime corrupto
pôs todo a mundo do avesso
hoje Espanha está de luto
mas inda agora é o começo