Em Fevereiro como o pao Nem que chovam picaretas Hás-de cair, Rei-Milhao Adeus, cidade do Porto Adeus muros de Custóias Cantando à chuva e ao vento Andei a enganar as horas Tenho mais de mil amigos Aqui nao me sinto só Cantarei ao desafio Ninguém tenha de mim dó O meu Portugal formoso Berço de latifundiários Onde um primeiro ministro
Já manda a merda os operários Já hoje muito maroto Se diz revolucionário E faz da bolsa do povo Cofre-forte do bancário Camaradas lá do Norte Venham ao Sul passear Cá nas nossas cooperativas Há sempre mais um lugar
A fadiga é um dom da natureza Chiça! Com as minhas tamanquinhas Com as minhas Com as minhas tamanquinhas P'ra quem nao faz fortuna Mata as penas e faz covinhas Pela calçada desliza o operário A modista O alfaiate Metidos num alicate Depois da festa, menina Muita gente se amofina E o fanqueiro? A ferrugem? E o canalha? Mete-os na forma Queime-os na fornalha
Conheci-te ainda moço Ou como tal eu te via Habitavas o Procópio Ias ao Napoleao Mas ninguém sabia ao certo Como se faz um canalha Se a memória me nao falha Tinhas o mundo na mao Alguma gente enganaste (A fé da muita amizade Tem também as suas falhas Hoje fazes alianças A bem da Santa Uniao Em abono da verdade A tua Universidade Tem mesmo um nome: Traiçao Um social-democrata Nao foge ao Grao-Timoneiro Basta citar o paleio O major psicopata Já sao tantos namorados Só falta o Holden Roberto Devagar se vai ao longe Nunca te vimos tao perto Nunca te vimos tao longe Daquilo que tens pregado
Nunca te vimos tao fora Da vida do Zé Soldado Ninguém mais te peça meças No folgor dos gabinetes Hás-de acabar às avessas Barricado até aos dentes És um produto de sala Rasputim cá dos Cabrais Estas sempre em traje de gala A brincar aos carnavais Nos anais do mundanismo A nossa história recente Falará com saudosismo Dum grande Lugar-Tenente Sao tudo favas-contadas No país da verborreia Uma brilhante carreira Dá produto todo o ano Digamos pra ser exacto Assim se faz um canalha Se a memória nao me falha Já te mandei prò Caetano
Interpretação:
José Afonso
"Fura Fura"
(LP) (1979)
Autor: José Afonso
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De nao saber o que me espera Tirei a sorte à minha guerra Recolhi sombras onde vira Luzes de orvalho ao meio-dia Vítima de só haver vaga Entre uma mao e uma espada Mas que maneira bicuda De ir à guerra sem ajuda Viemos pelo sol nascente Vingamos a madrugada Mas nao encontramos nada Sol e àgua sol e àgua De linhas tortas havia Um pouco de maresia Mas quem vencer esta meta Que diga se a linha é recta
Interpretação:
José Afonso
"Fura Fura"
(LP) (1979)
Autor: José Afonso
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De sal de linguagem feita Numa verruma que atava A lingua presa do jeito A forma de ser escrava O apito do comboio Que não dizia de onde era O sinal, a mordedura A visita que não vem O corredor, o tapume A sala vedada às feras O frenesim das gibóias Em guarda, o soldo, a comida, A cozedura do pleito O cheiro a papel selado Um cantinho de amargura Um raio de sol queimado, Junto do bolso do fato A morte a vida a vitória Diga lá minha menina Se acredita nesta história
Interpretação:
José Afonso
"Galinhas do Mato"
(LP) (1985)
Autor: José Afonso
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Vai terminar esta
prosa
Estamos na década de Salomé
Será o Apocalipse ou a torneira
a pingar no bidé?
É meio dia dia de
feira
mensal em Vila Nogueira
Estamos na década do bricolage
Diz o jornal que um emigra
morreu afogado em Mira
Antes da data
Do mariage
Estamos na Europa
civilizada
já cá faltava
uma maison
pour la patrie
p´lo Volkswagen
acabou-se a forragem
viva o patron!
Já tem destino esta
terra
vamos mudar para o marché aux puces
o tempo das ceroilas está no fio
agora só de trousses.
É meio dia dia de
feira
mensal em Vila Nogueira
Estamos na década do bricolage
Diz o jornal que um emigra
morreu afogado em Mira
Antes da data
Do mariage.
Saem quarenta mil ovos
moles
Vilar Formoso
é logo ali
faz-se um enxerto
com mijo de gato
Sola de sapato
voilá Paris!
Aos grandes
supermercados
chega cultura num bi-camion
Camões e Eça vendem-se enlatados
lavados com «champon»
É meio dia dia de
feira
mensal em Vila Nogueira
Estamos na década do bricolage
Diz o jornal que um emigra
morreu afogado em Mira
Antes da data
Do mariage
Estamos na Europa
radarizada
já cá faltava
uma turquês
para o controle
do bravo e do manso
vivaço e do tanso
em cada mês!
A fina flor do entulho
largou o pêlo ganhou verniz
Será o Christian Dior o manajeiro
a mandar no país?
Estamos da Europa
do «estou-me nas tintas»
nada de colectivismos
chacun por si, meu
e chcaun por soi
tê vê e cama
depois da esgaça
até que lhes dê a traça
a culpa é toda
do erre Hagá.
Levam-te à caça
dos gambuzinos
com dois ouriços
em cada mão
ai velha fibra
do bairro de Alfama
a carcaça do Gama
vai a leilão!
Interpretação: José Afonso
"Enquanto Há
Força" (LP) (1978)
Autor: José Afonso
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Enquanto há força No braço que vinga Que venham ventos Virar-nos as quilhas Seremos muitos Cantai rapazes Dançai raparigas E vós altivas Cantai também Levanta o braço Faz dele uma barra Que venha a brisa Lavar-nos a cara Seremos muitos Seremos alguém Cantai rapazes Dançai raparigas E vós altivas Cantai também
Interpretação:
José Afonso
“Como se Fora Seu Filho" (LP) (1983)
Autor: José Afonso
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Eu dizia Quanto madura me animavas Seguindo a noite Barco ou estrada Sem rótulo Sem luzes Em vitória Na mesma rota De tanto compatriota Entre o sol e a lua Sereníssima Rodavas em silêncio noite fora Fazíamos um norte De vigília Do lado da montanha Ninguém chora
Interpretação:
José Afonso
“Enquanto Há Força" (LP) (1978)
Autor: José Afonso
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Eu, o
Povo Conheço a força da terra que rebenta a granada
do grão Fiz desta força um amigo fiel
O vento sopra com força A água corre com força O fogo arde com força
Nos meus braços que vão crescer vou estender
panos de vela Para agarrar o vento e levar a força do vento à
produção As minhas mãos vão crescer até fazerem pás de
roda Para agarrar a força da água e pô-la na produção Os meus pulmões vão crescer soprando na forja do
coração Para agarrar a força do fogo na produção
Eu, o Povo Vou aprender a lutar ao lado da Natureza Vou ser camarada de armos dos quatro elementos
A táctica colonialista é deixar o Povo ao
natural Fazendo do Povo um inimigo da Natureza
Eu, o Povo Moçambicano Vou conhecer as minhas grandes forças todas
Interpretação:
José Afonso
“Fados de Coimbra e Outras Canções" (LP) (1981)
Autor: Felisberto Ferreirinha, Popular
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Não digas não dize sim, Muito embora amor não sintas Não digas não dize sim, Muito embora amor não sintas O não envenena a gente Dize sim, inda que mintas O não envenena a gente Dize sim, inda que mintas Não digas não dize sim, Sê ao menos a primeira Não digas não dize sim, Sê ao menos a primeira Falta-me embora à verdade, Não sejas tão verdadeira Falta-me embora à verdade, Não sejas tão verdadeira.
Interpretação:
José Afonso
“Fados de Coimbra e Outras Canções" (LP) (1981)
Autor: António Nobre, Francisco Menano
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A cabra da velha torre, Meu amor, chama por mim; Quando um estudante morre, Os sinos tocam assim. Ai quem me dera abraçar-te, Junto ao peito assim, assim, Levar-me a morte e levar-te Toda abraçadinha a mim.
Interpretação:
José Afonso
“República" (LP) (1975)
Autor: José Afonso ********************** Foi no sábado passado muitos compagni vieram à manife que fizeram no lugar mais afamado ali todos juntos eram muitos mil do nosso lado Aos gritos de Franco boia (Franco, Soares, Pinochet) já Roma lembrava Tróia na garrota tutti tre vinguemos os cinco mortos morte ao fascismo: vencer! Dia internacionalista não faltava o militar apoiando os companheiros portugueses e a cantar: "Viva Portogallo Rosso" "Criar Poder Popular" Quisera lembrar agora naquela semana finda esquerda rivolucionária Vanguarda e Lotta Cantinua toda a força a classe operária ouve-se em Lisboa ainda Franco boia Franco boia todo o crime tem um preço o teu regime corrupto pôs todo a mundo do avesso hoje Espanha está de luto mas inda agora é o começo