01/01/2023

1974 "Coro dos Tribunais"

 

***************************

CORO DOS TRIBUNAIS

Foram-se os bandos dos chacais
Chegou a vez dos tribunais
Vão reunir o bom e o mau ladrão
Para votar sobre um caixão
Quando o inocente se abateu
Inda o morto não morreu
Quando o inocente se abateu
Inda o morto não morreu

A decisão do tribunal
É como a sombra do punhal
Vamos matar o justo que ali jaz
Para quem julga tanto faz
Já que o punhal não mata bem
A lei matemos também
Já que o punhal não mata bem
A lei matemos também

Soa o clarim soa o tambor
O morto já não sente a dor
Quando o deserto nada tem a dar
Vêm as águias almoçar
O tribunal dá de comer
Venham assassinos ver
O tribunal dá de comer
Venham assassinos ver

Se o criminoso se escondeu
Nada de novo acoteceu
A recompensa ao punho que matou
Uma fortuna a quem roubou
Guarda o teu roubo guarda-o bem
Dentro de um papel a lei

********************************

O HOMEM VOLTOU

O homem voltou ao solar do amigo
O homem queimou um cigarro na testa
O homem voltou calculando o destino
Andou mais um passo e nao viu
Matava ele o tempo numa outra azinhaga
E a voz era fraca ninguém o ouvia
A larva estendia e o sol abrasava
A marcha do tempo parou
Havia uma vala na rua comprida
E a porta travava ninguém o espera
O homem cavava uma cova na vida
Ali nem o céu se calou
Trazia uma ruga na cara comprida
Nao vinha pra nada nao vinha por nada?
E a rua era larga e a rua era fria
Andou mais um passo e tombou
Havia uma hora que havia uma vida
Que o homem andava que o homem corria
E a porta travava e um tiro partia
A marcha do tempo parou
O homem voltou ao solar do amigo
E a casa era escura e a porta batia
O homem queimou um cigarro na testa
Andou mais um passo e tombou
Na volta era a noite
Chupava-se a vida
Que há tempo e medida
Chupava-se a vida
O homem precisa é dum'outra cantiga
Agora que o frio voltou

********************************

AILÉ! AILÉ!

Limpa a bota
Cava na trincheira
Puxa-lhe
Pela crina
Corta as pinças
A centopeia
Poe-lhe uma pedra
Em cima
Mata a bicha
Que está bem cheia
Morde-lhe a perna
Fina
Corta a língua
Fura a traqueia
Que ela estrebucha
Ainda
Se ela assopra
Cospe-lhe à beira

Dá-lhe c'os pés
A bruta
Ninguém topa
Que é cuspideira
Salta-lhe
P'rá garupa
Tanto cavas
A cova funda
Que há-de acabar
A bicha
Poe-lhe a terra
Sobre a corcunda
P'ra nao se ver
A crista
***************************
NÃO SEREMOS PAIS INCÓGNITOS 
A pele é seca para curtir
- Não é meu bem
A cara é magra para sorrir
- Não é meu bem
A cama é boa para dormir
- Não é meu bem
A corda é boa para subir
- Não é meu bem
A morte é santa para cumprir
- Não é meu bem
A louça é cara para partir
- Não é meu bem
A cal é branca para encobrir
- Não é meu bem
A banca é boa para falir
- Não é meu bem
A vida é dura para resistir
- Não é meu bem
A porta é boa para se abrir
- Não é meu bem
*********************************
O QUE FAZ FALTA

Quando a corja topa da janela
O que faz falta
Quando o pão que comes sabe a merda
O que faz falta
O que faz falta é avisar a malta
O que faz falta
O que faz falta é avisar a malta
O que faz falta

Quando nunca a noite foi dormida
O que faz falta
Quando a raiva nunca foi vencida
O que faz falta
O que faz falta é animar a malta
O que faz falta
O que faz falta é acordar a malta
O que faz falta

Quando nunca a infância teve infância
O que faz falta
Quando sabes que vai haver dança
O que faz falta
O que faz falta é animar a malta
O que faz falta
O que faz falta é empurrar a malta
O que faz falta

Quando um cão te morde uma canela
O que faz falta
Quando a esquina há sempre uma cabeça
O que faz falta
O que faz falta é animar a malta
O que faz falta
O que faz falta é empurrar a malta
O que faz falta

Quando um homem dorme na valeta
O que faz falta
Quando dizem que isto é tudo treta
O que faz falta
O que faz falta é agitar a malta
O que faz falta
O que faz falta é libertar a malta
O que faz falta

Se o patrão não vai com duas loas
O que faz falta
Se o fascista conspira na sombra
O que faz falta
O que faz falta é avisar a malta
O que faz falta
O que faz falta dar poder à malta
O que faz falta

*******************************

LÁ NO XEPANGARA

Lá no Xepangara
Vai nascer menino
Dentro da palhota
Tem a seu destino
Lá no Xepangara
Fica muito bem
Deitado na esteira
Ao lado da mae
Há-de ter um nome
Lá prò fim do ano
Se morrer de fome
Tapa-se com um pano
Se tiver já corpo
Rega-se com vinho
Se nao cair morto
Chama-se menino
Se tiver umbigo
Corta-se à navalha
Tira-se uma tripa
Faz-se uma mortalha
Pretinho de raça
Sempre desconfia
Se o musungo passa
Diz muito bom dia
Quando for mufana
E já pedir pao

Dá-se uma lambada
Vem comer à mao
Mais uma patada
Vai-te embora cao
Dá-se-lhe porrada
Porque é mandriao
Lá prò fim do ano
Quando já for moço
Guarda-se o tutano
Fica pele e osso
Quando já for homem
Tira-se o retrato
Come na cozinha
Chama-se mainato
Se mudar de vida
Vai para o contrato
No fundo da mina
Fica mais barato
Quando já for velho
Chama-se tratante
Dá-se-lhe aguardente
Morre num instante

*************************

EU MARCHAVA DE DIA E DE NOITE

Eu marchava de dia e de noite
Mais do que um dia de avanço ganhei
Só o forte tem sorte
Para o fraco é o chicote
Mais que um dia de avanço ganhei
Mais que um dia de avanço ganhei

Só o forte resiste ao combate
Sabe que o coolie que não há outra lei
Ó petroléo da terra
Hei-de ter-te na guerra
Só a morte é que sabe o que eu sei
Só a morte é que sabe o que eu sei

O homem conquista a vitória
Sobre o deserto e o rio também
É ele que se vence

e domina
e alcança

O petroléo que a todos convém
O petroléo que a todos convém

A morte é para o fraco e o combate
É para o forte - foi Deus que mandou
Ao rico uma ajuda e ao pobre uma surra
Foi assim que o planeta girou
Foi assim que o planeta girou

Quem cai já não torna a cair
Deixa-o ficar porque assim está bem
À mesa da fama assentou-se quem mama
É assim porque à gente convém
É assim porque à gente convém

***********************************

TENHO UM PRIMO CONVEXO

Tenho um primo convexo

Fadado para amnistias

Em torno de ele nadam

Plantas carnívoras

Agitando como plumas

As cordas violáceas

O meu primo dormita

Glu glu entre palmeiras

Suspenso numa rede

De suor e preguiça

Corvos bicam-lhe os pés

Trincam-lhe os calos

Enquanto a tarde jaz

E a mão suspende

O gesto de acordá-lo

E a terra treme

Mas de nada o meu primo se apercebe

*********************************

SÓ OUVE O BRADO DA TERRA

Só ouve o brado da terra

Quem dentro dela

Veio a nascer

Agora é que pinta o bago

Agora é qu'isto vai aquecer

 

Cala-te ó clarim da morte

Que a tua sorte

Não hei-de eu querer

Mal haja a noite assassina

E quem domina

Sem nos vencer

 

Cobrem-se os campos de gelo

Já não se ouve

O galo cantor

Andam os lobos à solta

Pega no teu

Cajado, pastor

 

Homem de costas vergadas

De unhas cravadas

Na pele a arder

É minha a tua canseira

Mas há quem queira

Ver-te sofrer

 

Anda ver o Deus banqueiro

Que engana à hora e que rouba ao mês

Há milhões no mundo inteiro

O galinheiro é de dois ou três

***********************************

A PRESENÇA DAS FORMIGAS

A presença das formigas

Nesta oficina caseira
A regra de três composta
As tantas da madrugada
Maria que eu tanto prezo
E por modéstia me ama
A longa noite de insónia
As voltas na mesma cama
Liberdade liberdade
Quem disse que era mentira
Quero-te mais do que à morte
Quero-te mais do que à vida

********************************