Oh! que calma vai caindo
Sobre las gentes do campo
Meu amor que po lá anda
Encosta-te ao lírio branco
Andando eu a "ceifari"
Nas ladeiras do "ponsuli"
Não me venhas a "lembrari"
Menina da saia "azuli"
A rola se vai queixando
Que lhe roubaram os ovos
Naõ os puseras tu rola
Tanto ao pé dos meus olhos
Por cima ceifa-se o trigo
Por baixo fica o restolho
Menina não se enamore
De rapaz que embisga o olho
Já se está o sol a "pôri"
Para trás do cabecinho
Bem quisera o nosso amo
Prendê-lo com um baracinho
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S. MACAIO
São Macaio, São Macaio deu à costa
Ai deu à costa nos Baixos da Urzelina
Toda a gente, toda a gente se salvou
Ai se salvou, só morreu uma menina
Ai deu à costa lá na Ponta dos Mosteiros
Toda a gente, toda a gente se salvou
Ai se salvou, só morreu dois passageiros
Ai deu à costa nas pedras da Fajãzinha
Toda a gente, toda a gente se salvou
Ai se salvou, só morreu uma galinha
Ai deu à costa nos Baixos do Maranhão
Ai se salvou, só o São Macaio não.
Toda a gente, toda a gente se salvou
No Inverno bato o queixo
Sem mantas na manhã fria
No Inverno bato o queixo
Qualquer dia
Qualquer dia
No Inverno aperto o cinto
Enquanto o vento assobia
No Inverno vou por lume
Lenha verde não ardia
No Inverno penso muito
Oh que coisas eu já via
No Inverno ganhei ódio
E juro que o não queria
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VAI, MARIA VAI
Vai, Maria vai
Maria vai
Maria vai trabalhar
Não Senhora não
Senhora não
Senhora não, Maria
Vai, Maria vai
Maria vai
A roupa branca lavar
Não Senhora não
Senhora não
Senhora não, Maria
Vai, Maria vai
Maria vai
A roupa branca enxugar
Não Senhora não
Senhora não
Senhora não, Maria
Vai, Maria vai
Maria vai
Aquele chão esfregar
Não Senhora não
Senhora não
Senhora não, Maria
Vai, Maria vai
Maria vai
O meu menino calar
Não Senhora não
Senhora não
Senhora não, Maria
Vai, Maria vai
Maria vai
Maria vai trabalhar
Não Senhora não
Senhora não
Senhora não, Maria
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DEUS TE SALVE, ROSA
Deus te salve, Rosa
lindo Serafim
Tão linda pastora
que fazes aí?
Que fazes aqui,
no monte c´o gado?
Mas que quer, Senhor,
nasci pr´a este fado.
No monte c´o gado,
corre grande p´rigo
Quer a menina
venir-se comigo?
Mas não quero, não, não,
tão alto criado
de meias de seda
sapato delgado.
Sapatos e meias
tudo romperei
por amor da menina
a vida darei.
Vá-se ó magano
Não me cause mais ódio
Que há-dem vir meus amos
Trazer-me o almoço.
Que venham os teus amos
Isso é o que eu gosto
Quero que eles vejam
Que eu falo com gosto.
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LÁ VAI JEREMIAS
Lá vai Jeremias
Lá vai Jeremão
Lá vai senhor alferes
Melhor capitão
Ó Elvas, ó Elvas
Ó Penamacor
Neste regimento
Anda o meu amor
Além mais abaixo
Se vende aguardente
A dez reis o copo
Para toda a gente
À entrada de Elvas
Estão duas cadeiras
Para se assentarem
As moças solteiras
Ai que quebra, quebra
que se quebra o linho
Quebra a loiça toda
Fica o prato fino
Além mais abaixo
Se vende licor
A dez reis o copo
Para o meu amor
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NO VALE DE FUENTEOVEJUNA
No vale de Fuenteovejuna
cabelos aos vento estava
seguida pelo cavaleiro
o da Cruz de Calatrava
entre a ramada se esconde
de vergonhosa e turbada
- Para que te escondes
moça formosa
desejos são linces
paredes removem
Acercou-se o cavaleiro
e ela confusa e turbada
gelosias quis fazer
das ramas emaranhadas
mas como tem amores
as montanhas e os mares
atravessa facilmente
disse-lhe estas palavras
-Para que te escondes
moça formosa
desejos são linces
paredes removem
No vale de Fuenteovejuna
cabelos aos vento estava
seguida pelo cavaleiro
o da cruz de Calatrava
entre a ramada se esconde
de vergonhosa e turbada
-Para que te escondes
moça formosa
desejos sáo linces
paredes removem
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ERA DE NOITE E LEVARAM
Era de noite e levaram
Era de noite e levaram
Quem nesta cama dormia
Nela dormia, nela dormia
Sua boca amordaçaram
Sua boca amordaçaram
Com panos de seda fria
De seda fria, de seda fria
Era de noite e roubaram
Era de noite e roubaram
O que nesta casa havia
Na casa havia, na casa havia
Só corpos negros ficaram
Só corpos negros ficaram
Dentro da casa vazia
Casa vazia, casa vazia
Rosa branca, rosa fria
Rosa branca, rosa fria
Na boca da madrugada
Da madrugada, da madrugada
Hei-de plantar-te um dia
Hei-de plantar-te um dia
Sobre o meu peito queimada
Na madrugada, na madrugada
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JÁ O TEMPO SE HABITUA
Já o tempo
Se habitua
A estar alerta
Nao há luz
Que nao resista
A noite cega
Já a rosa
Perde o cheiro
E a cor vermelha
Cai a flor
Da laranjeira
A cova incerta
Agua mole
Agua bendita
Fresca serra
Lava a língua
Lava a lama
Lava a guerra
Já o tempo
Se acostuma
A cova funda
Já tem cama
E sepultura
Toda a terra
Nem o voo
Do milhano
Ao vento leste
Nem a rota
Da gaivota
Ao vento norte
Nem toda
A força do pano
Todo o ano
Quebra a proa
Do mais forte
Nem a morte
Já o mundo
Se nao lembra
De cantigas
Tanta areia
Suja tanta
Erva daninha
A nenhuma
Porta aberta
Chega a lua
Cai a flor
Da laranjeira
A cova incerta
Nem o voo
Do milhano
Ao vento leste
Nem a rota
da gaivota
ao vento norte
Nem toda
a força do pano
todo o ano
Quebra a proa
do mais forte
nem a morte
Entre as vilas
E as muralhas
Da moirama
Sobre a espiga
E sobre a palha
Que derrama
Sobre as ondas
Sobre a praia
Já o tempo
Perde a fala
E perde o riso
Perde o amor
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A CIDADE
a palavra criança a palavra segredo.
A cidade é um céu de palavras paradas
a palavra distância e a palavra medo.
A cidade é um saco um pulmão que respira
pela palavra água pela palavra brisa
A cidade é um poro um corpo que transpira
pela palavra sangue pela palavra ira.
A cidade tem praças de palavras abertas
como estátuas mandadas apear.
A cidade tem ruas de palavras desertas
como jardins mandados arrancar.
A palavra sarcasmo é uma rosa rubra.
A palavra silêncio é uma rosa chá.
Não há céu de palavras que a cidade não cubra
não há rua de sons que a palavra não corra