01/01/2023

1974 "Coro dos Tribunais"

 

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CORO DOS TRIBUNAIS

Foram-se os bandos dos chacais
Chegou a vez dos tribunais
Vão reunir o bom e o mau ladrão
Para votar sobre um caixão
Quando o inocente se abateu
Inda o morto não morreu
Quando o inocente se abateu
Inda o morto não morreu

A decisão do tribunal
É como a sombra do punhal
Vamos matar o justo que ali jaz
Para quem julga tanto faz
Já que o punhal não mata bem
A lei matemos também
Já que o punhal não mata bem
A lei matemos também

Soa o clarim soa o tambor
O morto já não sente a dor
Quando o deserto nada tem a dar
Vêm as águias almoçar
O tribunal dá de comer
Venham assassinos ver
O tribunal dá de comer
Venham assassinos ver

Se o criminoso se escondeu
Nada de novo acoteceu
A recompensa ao punho que matou
Uma fortuna a quem roubou
Guarda o teu roubo guarda-o bem
Dentro de um papel a lei

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O HOMEM VOLTOU

O homem voltou ao solar do amigo
O homem queimou um cigarro na testa
O homem voltou calculando o destino
Andou mais um passo e nao viu
Matava ele o tempo numa outra azinhaga
E a voz era fraca ninguém o ouvia
A larva estendia e o sol abrasava
A marcha do tempo parou
Havia uma vala na rua comprida
E a porta travava ninguém o espera
O homem cavava uma cova na vida
Ali nem o céu se calou
Trazia uma ruga na cara comprida
Nao vinha pra nada nao vinha por nada?
E a rua era larga e a rua era fria
Andou mais um passo e tombou
Havia uma hora que havia uma vida
Que o homem andava que o homem corria
E a porta travava e um tiro partia
A marcha do tempo parou
O homem voltou ao solar do amigo
E a casa era escura e a porta batia
O homem queimou um cigarro na testa
Andou mais um passo e tombou
Na volta era a noite
Chupava-se a vida
Que há tempo e medida
Chupava-se a vida
O homem precisa é dum'outra cantiga
Agora que o frio voltou

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AILÉ! AILÉ!

Limpa a bota
Cava na trincheira
Puxa-lhe
Pela crina
Corta as pinças
A centopeia
Poe-lhe uma pedra
Em cima
Mata a bicha
Que está bem cheia
Morde-lhe a perna
Fina
Corta a língua
Fura a traqueia
Que ela estrebucha
Ainda
Se ela assopra
Cospe-lhe à beira

Dá-lhe c'os pés
A bruta
Ninguém topa
Que é cuspideira
Salta-lhe
P'rá garupa
Tanto cavas
A cova funda
Que há-de acabar
A bicha
Poe-lhe a terra
Sobre a corcunda
P'ra nao se ver
A crista
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NÃO SEREMOS PAIS INCÓGNITOS 
A pele é seca para curtir
- Não é meu bem
A cara é magra para sorrir
- Não é meu bem
A cama é boa para dormir
- Não é meu bem
A corda é boa para subir
- Não é meu bem
A morte é santa para cumprir
- Não é meu bem
A louça é cara para partir
- Não é meu bem
A cal é branca para encobrir
- Não é meu bem
A banca é boa para falir
- Não é meu bem
A vida é dura para resistir
- Não é meu bem
A porta é boa para se abrir
- Não é meu bem
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O QUE FAZ FALTA

Quando a corja topa da janela
O que faz falta
Quando o pão que comes sabe a merda
O que faz falta
O que faz falta é avisar a malta
O que faz falta
O que faz falta é avisar a malta
O que faz falta

Quando nunca a noite foi dormida
O que faz falta
Quando a raiva nunca foi vencida
O que faz falta
O que faz falta é animar a malta
O que faz falta
O que faz falta é acordar a malta
O que faz falta

Quando nunca a infância teve infância
O que faz falta
Quando sabes que vai haver dança
O que faz falta
O que faz falta é animar a malta
O que faz falta
O que faz falta é empurrar a malta
O que faz falta

Quando um cão te morde uma canela
O que faz falta
Quando a esquina há sempre uma cabeça
O que faz falta
O que faz falta é animar a malta
O que faz falta
O que faz falta é empurrar a malta
O que faz falta

Quando um homem dorme na valeta
O que faz falta
Quando dizem que isto é tudo treta
O que faz falta
O que faz falta é agitar a malta
O que faz falta
O que faz falta é libertar a malta
O que faz falta

Se o patrão não vai com duas loas
O que faz falta
Se o fascista conspira na sombra
O que faz falta
O que faz falta é avisar a malta
O que faz falta
O que faz falta dar poder à malta
O que faz falta

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LÁ NO XEPANGARA

Lá no Xepangara
Vai nascer menino
Dentro da palhota
Tem a seu destino
Lá no Xepangara
Fica muito bem
Deitado na esteira
Ao lado da mae
Há-de ter um nome
Lá prò fim do ano
Se morrer de fome
Tapa-se com um pano
Se tiver já corpo
Rega-se com vinho
Se nao cair morto
Chama-se menino
Se tiver umbigo
Corta-se à navalha
Tira-se uma tripa
Faz-se uma mortalha
Pretinho de raça
Sempre desconfia
Se o musungo passa
Diz muito bom dia
Quando for mufana
E já pedir pao

Dá-se uma lambada
Vem comer à mao
Mais uma patada
Vai-te embora cao
Dá-se-lhe porrada
Porque é mandriao
Lá prò fim do ano
Quando já for moço
Guarda-se o tutano
Fica pele e osso
Quando já for homem
Tira-se o retrato
Come na cozinha
Chama-se mainato
Se mudar de vida
Vai para o contrato
No fundo da mina
Fica mais barato
Quando já for velho
Chama-se tratante
Dá-se-lhe aguardente
Morre num instante

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EU MARCHAVA DE DIA E DE NOITE

Eu marchava de dia e de noite
Mais do que um dia de avanço ganhei
Só o forte tem sorte
Para o fraco é o chicote
Mais que um dia de avanço ganhei
Mais que um dia de avanço ganhei

Só o forte resiste ao combate
Sabe que o coolie que não há outra lei
Ó petroléo da terra
Hei-de ter-te na guerra
Só a morte é que sabe o que eu sei
Só a morte é que sabe o que eu sei

O homem conquista a vitória
Sobre o deserto e o rio também
É ele que se vence

e domina
e alcança

O petroléo que a todos convém
O petroléo que a todos convém

A morte é para o fraco e o combate
É para o forte - foi Deus que mandou
Ao rico uma ajuda e ao pobre uma surra
Foi assim que o planeta girou
Foi assim que o planeta girou

Quem cai já não torna a cair
Deixa-o ficar porque assim está bem
À mesa da fama assentou-se quem mama
É assim porque à gente convém
É assim porque à gente convém

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TENHO UM PRIMO CONVEXO

Tenho um primo convexo

Fadado para amnistias

Em torno de ele nadam

Plantas carnívoras

Agitando como plumas

As cordas violáceas

O meu primo dormita

Glu glu entre palmeiras

Suspenso numa rede

De suor e preguiça

Corvos bicam-lhe os pés

Trincam-lhe os calos

Enquanto a tarde jaz

E a mão suspende

O gesto de acordá-lo

E a terra treme

Mas de nada o meu primo se apercebe

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SÓ OUVE O BRADO DA TERRA

Só ouve o brado da terra

Quem dentro dela

Veio a nascer

Agora é que pinta o bago

Agora é qu'isto vai aquecer

 

Cala-te ó clarim da morte

Que a tua sorte

Não hei-de eu querer

Mal haja a noite assassina

E quem domina

Sem nos vencer

 

Cobrem-se os campos de gelo

Já não se ouve

O galo cantor

Andam os lobos à solta

Pega no teu

Cajado, pastor

 

Homem de costas vergadas

De unhas cravadas

Na pele a arder

É minha a tua canseira

Mas há quem queira

Ver-te sofrer

 

Anda ver o Deus banqueiro

Que engana à hora e que rouba ao mês

Há milhões no mundo inteiro

O galinheiro é de dois ou três

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A PRESENÇA DAS FORMIGAS

A presença das formigas

Nesta oficina caseira
A regra de três composta
As tantas da madrugada
Maria que eu tanto prezo
E por modéstia me ama
A longa noite de insónia
As voltas na mesma cama
Liberdade liberdade
Quem disse que era mentira
Quero-te mais do que à morte
Quero-te mais do que à vida

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1973 "Venham mais Cinco"

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RIO LARGO DE PROFUNDIS 

Rio largo de profundis
Uma neta pra nascer
Amor avenidas novas
Praça de Londres a arder
Não quero martelo e rima
Aqui no Largo da Graça
Quero ficar onde estou
Para salvar a quem passa
João, Francisco, Maria,
Cada qual um nome tem
Quando vos deu os bons dias
Ninguém responde a ninguém
Venha duma outra vontade
Lá eu soubera dizer
Amor avenidas novas
Praça de Londres a arder

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ERA UM REDONDO VOCÁBULO

Era um redondo vocábulo
Uma soma agreste
Revelavam-se ondas
Em maninhos dedos
Polpas seus cabelos
Resíduos de lar,
Pelos degraus de Laura
A tinta caía
No móvel vazio,
Congregando farpas
Chamando o telefone
Matando baratas
A fúria crescia
Clamando vingança,
Nos degraus de Laura
No quarto das danças
Na rua os meninos
Brincando e Laura
Na sala de espera
Inda o ar educa

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NEFRETITE NÃO TINHA PAPEIRA 

Nefretite não tinha papeira
Tuthankamon apetite
Já minha avó me dizia
Olha que a sopa arrefece
Nos funerais de antanho
As capicuas gritavam
E às escuras na cozinha
Já as galinhas dormiam
Manolo era o rei do fandango
Do fandaguilho picado
Maria se fores ao baile
Leva o casaco castanho
O rei João era dos tesos
Chamavam-lhe João dos Quintos
Lá na terra brasileira
Vinham quintais de Ouro Preto

Em suma a soma interessava
A quem interessa algum dia
De lingotes e pimentas
Ainda vamos ao fundo
Lá para o reino da Arábia
Havia amêndoas aos centos
Que grande rebaldaria
E a Palestina às escuras
Os Sheikes israelitas
Já que estou com a mão na massa
Lembram-me os Sheikes das fitas
Que dão porrada a quem passa

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ADEUS Ó SERRA DA LAPA

Adeus ó serra da Lapa

adeus que te vou deixar
ó minha terra ó minha enxada
não faço gosto em voltar

Companheiros de aventura
vinde comigo viajar
a noite é negra a vida é dura
não faço gosto em voltar

Dou-te o meu lenço bordado
quando de ti me apartar
eu quero ir prò outro lado
não faço gosto em voltar

O meu dinheiro contado
é para quem me levar
o meu caminho está traçado
não faço gosto em voltar

Moirar a terra insegura
fugir de serra e do mar
meus companheiros de aventura
tudo farei pra salvar

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VENHAM MAIS CINCO 

Venham mais cinco, duma assentada que eu pago já

Do branco ao tinto, se o velho estica eu fico por cá

Se tem má pinta, dá-lhe um apito e põe-no para andar

De espada na cinta, já crê que é rei de quem e além-mar

 Não me obriguem a vir para a rua

Gritar

Que já é tempo de embalar a trouxa

E zarpar

 A gente ajuda, havemos de ser mais

Eu bem sei

Mas há quem queira, deitar abaixo

O que eu levantei

 A bucha é dura

Mais dura é a razão que a sustém

Só nesta rusga

Não há lugar prós filhos da mãe

 Bem me diziam, bem me avisavam

Como era a lei

Na minha terra, quem trepa

No coqueiro é o rei

 A bucha é dura

Mais dura é a razão que a sustem

Só nesta rusga

 Não há lugar prós filhos da mãe


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A FORMIGA NO CARREIRO

A formiga no carreiro
vinha em sentido contrário
Caiu ao Tejo
ao pé de um septuagenário


Lerpou trepou às tábuas (bis)
que flutuavam nas águas (bis)
e do cimo de uma delas
virou-se para o formigueiro
mudem de rumo (bis)
já lá vem outro carreiro

A formiga no carreiro
vinha em sentido diferente
caiu à rua
no meio de toda a gente

Buliu abriu as gâmbeas
para trepar às varandas
e do cimo de uma delas
Mudem de rumo mudem de rumo
Já lá vem outro carreiro

A formiga no carreiro
andava à roda da vida
caiu em cima
de uma espinhela caída

Furou à brava
numa cova que ali estava
e do cimo de uma delas
Virou se pró formigueiro
Mudem de rumo mudem de rumo

Já lá vem outro carreiro

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QUE AMOR NÃO ME ENGANA 

Que amor não me engana
Com a sua brandura
Se da antiga chama
Mal vive a amargura
Duma mancha negra
Duma pedra fria
Que amor não se entrega
Na noite vazia?
E as vozes embarcam
Num silêncio aflito
Quanto mais se apartam
Mais se ouve o seu grito
Muito à flor das àguas
Noite marinheira
Vem devagarinho
Para a minha beira
Em novas coutadas
Junto de uma hera
Nascem flores vermelhas
Pela Primavera
Assim tu souberas
Irmã cotovia
Dizer-me se esperas
Pelo nascer do dia
E as vozes embarcam
Num silêncio aflito
Quanto mais se apartam
Mais se ouve o seu grito
Muito à flor das àguas
Noite marinheira
Vem devagarinho
Para a minha beira.

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PAZ POETA E POMBAS

A Paz viajou em busca da silêncio
Sitiou Berlim
Abdicou em Londres
A Paz saltou dos olhos do poeta
Atacada de psicose maniaco-depressiva

Foi nessa altura que as pombas
Solicitaram nas agências as tarifas
Mas não viram mais o poeta
Que gozava na Suiça
Duma licença graciosa

A Paz saiu aos saltos para a rua
Comeu mostarda
Bebeu sangria
A Paz sentou-se em cima duma grua
Atacada de astenia

Foi nessa altura que as pombas
Solicitaram nas agências as tarifas
Mas não viram mais o poeta
Que gozava na Suiça

Duma licença graciosa

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SE VOARAS MAIS AO PERTO 

Se voaras mais ao perto
Poisavas noutra vidraça
Com o teu bico dentado
Trazias mais um na asa
Vem longe o dia da monda
Não é tempo de mondar
Ó Cigana ó ciganinha
Que nome te hei-de eu dar
Andorinha de asa preta
Vai gritando em altos brados
Chega-te à minha janela
Livra-me destes cuidados
Se voara como ela
A tua sorte era a minha
Diz-me lá ó ciganinha
O que nos quer a andorinha
O que nos quer a andorinha
Bem gostara de saber
O mundo é bola de fogo
Nem todos ficam a arder.

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GASTÃO ERA PERFEITO

Gastão era perfeito
Conduzido por seu dono
Em sanolências afeito
Às picadas dos mosquitos
Era Gastão milionário
Vivia em tapetes raros
Se lhe viravam as costas
Chamava logo a polícia
Em crises de malquerência
Vinha-lhe o gosto pla soda
Mas ninguém se abespinhava
Que enviuvasse às ocultas
Nem Gastão se apercebia
De quanto a vida o prendara
Entre estiletes de prata
E colchas de seda fina
Gastão era deste jeito
Fazia provas reais
Gastão era um parapeito
De Papas e Cardeais
Vinha-lhe só por fastio
Nos tiquetaques da vida
Um solene desfastio
Pela mãe que era entrevada
Mandava bombons recados
Por mensageiros aflitos
Não fora Gastão dos fracos
E já seria ministro
Conheci-o em Alverca
Num bidon de gasolina
Tinha um pneu às avessas
Mas de asma é que sofria
No solestício de Junho
A quem o quisesse ouvir
Dizia que era sobrinho
Do Fernão Peres de Trava
Querem saber de Gastão?
Vão ao Palácio da Pena
Usa agora capachinho
E gosta de codornizes
Gastão era perfeito
Conduzido por seu dono
Em sanolências afeito
Às picadas dos mosquitos
Tem um sinal que o indica
Como o mais forte Doutor
Espeta o dedo no queixo
E diz que é Nosso Senhor.